Arquivo para amígdala

O teste do Marshmallow!

Postado em Neurociência, Uncategorized com as tags , , em Outubro 18, 2009 por Josy Pontes

marshmallow

Toda criança sabe o quanto é difícil ter que comer toda a comida pra ganhar a sobremesa, ou até mesmo ter que esperar até a hora do parabéns pra poder comer os brigadeiros! Principalmente quando os brigadeiros estão ali, em forminhas laminadas em cima de uma mesa colorida, cheia de enfeites… Isso é tortura para uma criança!

Há algum tempo escrevi no post “Sair ou Estudar? Eis a questão” como o cérebro decide se esforçar um pouquinho mais para ter uma recompensa maior. Afinal, vale a pena esperar a hora do parabéns para poder saborear todos os tipos de docinhos espalhados na mesa!

Algumas áreas do cérebro envolvidas nesse tipo de decisão (baseada no esforço):

Amígdala cerebral: que é uma estrutura altamente associada às emoções e responsável por informar o nosso córtex cingulado anterior o quanto uma recompensa nos agrada, o quanto ela vale a pena.

Córtex cingulado anterior: que avalia os custos e benefícios do problema em questão.

Núcleo accumbens: uma região relacionada com as sensações de prazer e recompensa.

Você deve estar se perguntando. Porque será que estou falando tudo isso de novo???
A resposta é simples…

O vídeo a seguir mostra esse sistema de recompensa (baseada no esforço) EM AÇÃO!

E bota esforço nisso!

Josy Pontes

Espelho, espelho meu… existe alguém que sinta o mesmo que eu?

Postado em Neurociências com as tags , , , , , em Dezembro 14, 2008 por Josy Pontes

Assista os vídeos abaixo:

Certamente, você pensou “nossa!” ou fez alguma outra interjeição de dor ou espanto!

Se não fez, imagine que essas cenas tenham acontecido na sua frente!
Ou até mesmo imagine aquelas vídeos-cassetadas onde o cara bate as “partes baixas” em algum lugar… e imediatamente você fala “ai!”, ou faz alguma cara do tipo “essa doeu”.

E por que isso acontece?

Porque somos solidários a dor alheia? De certa forma, SIM!

Mas o que acontece no nosso cérebro?

No verão de 1994, na Universidade de Parma na Itália, um macaco aguarda pacientemente no laboratório que os pesquisadores voltem do almoço.
Mas esse não era um macaco qualquer, aliás era, mas tinha alguns “adicionais de fábrica”… ele tinha eletrodos no cérebro, particularmente nas regiões que planejam e executam os movimentos, também chamado de córtex pré-motor.

Esses eletrodos ficavam ligados a um máquina que toda vez que o macaco realizava algum movimento, neurônios dessa região disparavam e essa máquina fazia um som.

Nesse dia, um pós-graduando entrou no laboratório tomando um sorvete. Quando este levou o sorvete até a boca, a máquina soou mesmo sem qualquer movimento do macaco! O macaco apenas observou o movimento!!!

Giacomo Rizzolatti, um neurocientista dessa universidade relatou que outros pesquisadores haviam observado a mesma coisa, só que amendoins. Parafraseando o famoso Chaves: “Eu sabia isso com maçãs!” Mas nesse caso era com amendoins!

Os pesquisadores observavam que os neurônios que disparavam quando o macaco realizava o movimento eram os mesmo que disparavam quando ele apenas observava o movimento!

Esses neurônios são chamados de neurônios-espelho…

Porém, nosso cérebro é um pouco mais complexo. Segundo Rizzolatti: “Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo… e não pensando”

Ou seja, nós sentimos o que o outro sente… quando nós observamos uma ação, nós a executamos também… mas no nosso cérebro!

Por isso, nos vídeos acima se você sentiu alguma aflição ao ver as pessoas caindo ou se machucando, por mais ou menos engraçados que sejam, você também sentiu, por causa dos neurônios-espelho!

E por que nós “realizamos” o movimento no nosso cérebro, mas não o realizamos de verdade?
Porque o nosso córtex pré-frontal, região da frente do cérebro não permite pois seria um movimento inútil pra nós naquele momento.

Isso explica diversas coisas que acontecem no nosso cotidiano, um bom exemplo disso é o bocejo!
Mas quando vemos alguém bocejar, é muito difícil resistir!

E nesse caso… é inevitável!

Por que?
Porque o bocejo é regulado por outras áreas do cérebro também, como o hipotálamo e amígdala. E quando esses falam, o córtex pré-frontal não mete o bedelho!

Pra entender melhor como o bocejo é regulado, assista ao vídeo do quadro do Fantástico “Neurológica”, apresentado pela também fantástica neurocientista Suzana Herculano-Houzel:

Isso que eu chamo de sentir na pele… ou melhor… no cérebro!

Josy Pontes

Um pouco de estresse é bom… e o cérebro gosta!

Postado em Drogas de abuso com as tags , , , , , , , , , , , , , , , em Setembro 8, 2008 por Josy Pontes

Dessa vez não vou falar de emoções… mas não tenho como fugir (pelo menos não dessa vez), uma vez que não temos como separar razão de emoção (Descartes que me perdoe!).

Quando falamos de estresse, falamos também de eixo HPA (aquela comunicação entre Hipotálamo-Hipófise (ou Pituitária… por isso o P)-Adrenal.

Relembrando, o hipotálamo é aquela região do cérebro que produz o CRF (fator ou hormônio liberador das corticotrofinas), que estimula a hipófise (ainda no cérebro) a liberar o ACTH (hormônio adrenocorticotrófico… apertando a tecla SAP e traduzindo esse palavrão: hormônio que estimula a córtex da glândula adrenal, perto dos rins). Estimulando a córtex adrenal temos a liberação do cortisol, esse é o famoso hormônio do estresse!

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Agora, vamos imaginar a seguinte situação… Estamos numa festa e de repente, aquele grupinho de canto que até agora parecia só observar de longe, resolve sair da festa… dar uma volta ou procurar um canto mais discreto da festa… Pronto, agora chegamos ao assunto, DROGAS!

O grupo procura o melhor lugar, ou seja, aquele longe das pessoas, da polícia e de qualquer outra criatura que possa puni-los ou dar-lhes aquele baita sermão. A situação é estressante? Sim, sem dúvida… mas e o kiko?

A revista Neuron de julho deste ano publicou uma revisão que associa os sistemas de estresse do cérebro ao vício!

Segundo o autor, a ativação do eixo HPA está associada ao uso de drogas e a desregulação desse eixo está relacionada ao vício.

Ou seja, um pouco de estressante é prazeroso pro cérebro, mas em pequenas doses!

Só que, quando o hipotálamo libera o CRF ele não ativa só a hipófise, mas também ativa uma série de outras estruturas fora do hipotálamo e essa ativação extra-hipotalâmica (incluindo áreas ligadas às emoções) tem tudo a ver com a fase de abstinência, todo mundo sabe como fica um usuário na abstinência da droga. Estresse é pouco, então é de se esperar que esse sistema esteja alterado.

Por exemplo, em alcoólatras na abstinência de álcool há um aumento de CRF na amígdala (estrutura do cérebro ligada às emoções) e na estria terminal (outra região do cérebro) e os autores sugerem que é esse aumento de CRF nessas regiões que está por trás do comportamento ansioso e pelas recaídas dos álcool-dependentes.

Figura que mostra a estria terminal e a amigdala cerebral.

Figura que mostra a estria terminal e a amígdala cerebral.

Em ratos álcool-dependentes (sim, ratos “alcoólatras”), se aplicarmos um antagonista de CRF (que não deixa o CRF agir) na amígdala, esse ratos possuem uma diminuição no comportamento ansioso associado à abstinência.

Além de diminuir a ansiedade, também diminui as recaídas durante essa abstinência. Ainda bem que os ratos não costumam frequentar bares, baladas e nem as churrascadas da faculdade!
O que uma birita não faz não é?

E o mesmo resultado foi observado com cocaína, heroína e nicotina.

Mudando de pato pra ganso, ou melhor de CRF pra noradrenalina. A situação é parecida, bloqueando a ação desse neurotransmissor nas mesmas regiões (estria terminal e amígdala), também há uma diminuição da ansiedade e das recaídas na abstinência. Isso vale pra álcool, cocaína, nicotina e opióides como a morfina.

Resumindo, o estresse aumenta o CRF e a noradrenalina que estão ligados ao gostinho de “quero mais” típico das drogas. Sem CRF e noradrenalina na amígdala e na estria terminal, a pessoa em abstinência fica menos ansiosa e menos propensa a recaídas.

No caso das drogas, vimos que o aumento do CRF na abstinência é marcante. Porém, isso torna-se um ciclo: a pessoa tem a droga, usa, acaba, tem a droga, usa, acaba… e assim sucessivamente. Isso é que é brincar com o eixo HPA! Tanto que o eixo HPA cria uma “tolerância”, ele fica cansado e deixa de responder.

Esse comprometimento do eixo HPA está relacionado ao estado emocional negativo da ausência da droga e estado negativo vai embora quando se administra “só mais uma vez”, mas essa uma vez acaba se tornando várias vezes e a quantidade da droga é cada vez maior porque o eixo HPA já não é mais aquele que logo se manifestava.

Seria dessa forma que a ativação do eixo HPA exerceria um papel imporante no mecanismo de recompensa do cérebro quando se começa a usar droga, mostrando que aquilo é gostoso, mas como o tempo a desregulação torna tudo mais dificil e menos prazeroso.

Por esse motivo e por muitos outros (mas os outros motivos são cenas dos próximos capítulos) é necessário aumentar a dose sentir o mesmo prazer do início…

É como dizem por aí… o “barato”sai caro!

Josy Pontes

Centro das Emoções: Cérebro ou Coração? – Parte II

Postado em Neurociências com as tags , , , , , , , , , , , , em Agosto 1, 2008 por Josy Pontes


Estou há 3 dias pensando em um tema para postar e nada!

Apesar de me sentir vencida pela falta de criatividade, hoje o amigo e comediante Danilo Gentili me deu uma excelente idéia. Ele disse que hoje (31/07) é o Dia Mundial do Orgasmo!

Confesso que nunca tinha ouvido falar desse tal dia e confesso também que o Danilo não é fonte das mais confiáveis…

Não que o orgasmo não seja digno de um dia só para ele e nem seja um assunto interessante, mas resolvi escrever a segunda parte do meu texto “Centro das Emoções: Cérebro ou Coração?”

O prazer, a euforia, a tristeza, o desânimo, a depressão, o medo, a ansiedade, a raiva, a calma, o desânimo, a alegria… são emoções comuns no nosso dia-a-dia e são elas que conduzem e influenciam nossas ações. Não precisamos ser neurocientistas para saber disso.

E por serem tão complexas, já era de se esperar que a fisiologia delas também seja complexa e envolva uma série de estruturas e áreas do cérebro.

CÓRTEX: as emoções são conscientes, todos sabemos quando estamos apaixonados, quando nos recusamos a subir na montanha-russa, quando queremos ficar sozinhos sem falar com ninguém. Logo, o córtex frontal está envolvido nas emoções.

SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO: quem nunca sentiu o coração disparar depois daquele tropeção, ou sentiu a respiração ficar mais rápida ao se aproximar da pessoa amada, ou suou frio diante daquele cachorrinho “bonzinho”. Acho que nem preciso explicar o envolvimento do sistema nervoso autônomo né?

HIPOTÁLAMO: é nele que estão muitos dos circuitos neuronais que regulam a temperatura, a frequência cardíaca, a pressão sangüínea e muitas outras funções. Ele regula tudo isso através do Sistema Nervoso Autônomo citado acima.

Ok… até agora sem grandes novidades!
Mas onde fica a representação cortical das emoções?

1937 -> Um cara chamado Papez propôs que a região do cérebro intimamente ligada com as emoções era o LOBO LÍMBICO que seria um conjunto de estruturas como o giro parahipocampal (que é a continuação do giro cingulado) e o córtex subjacente à formação hipocampal (hipocampo + giro denteado + subículo).

Papez dizia que como o hipotálamo se comunica com áreas corticais superiores (giro cingulado e formação hipocampal), a cognição e a emoção afetam uma a outra. Isso parece óbvio, pois ninguém consegue aprender algo durante um momento de tensão.

1939 -> Klüver e Paul viram que se o lobo temporal for removido bilateralmente em macacos, ou seja, adeus amígdala e formação hipocampal!
Os animais tornaram-se totalmente orais (???), colocando tudo na boca (Ok… sem pensar besteira), inclusive cobras (Tá… tá ficando cada vez mais esquisito)!
Isso mostrou a Klüver e Paul que os animais perdiam completamente o medo!

Outro ponto esquisito e interessante é que os macacos aumentavam (e muito!) o comportamento sexual (Cá entre nós… depois da cobra, já era de se esperar não é mesmo?). Esse estudo um tanto pornográfico foi importante pois revelou uma estrutura que hoje é reconhecida como a porção do sistema límbico mais implicada nas emoções. A amígdala!

AMÍGDALA: Não, não é aquela que dói quando temos amigdalite. Essa amígdala (ou corpo amigdalóide) que vou falar fica no cérebro! Muitos dos efeitos da amígdala sobre os estados emocionais são mediados através do hipotálamo (que se comunica com centros cerebrais superiores) e do sistema nervoso autonômico (que produz os efeitos no organismo: taquicardia, tremores, sudorese).

Experimentos onde a amígdala era lesionada provocavam diversos efeitos (dependendo da região da amígdala que era acometida):

* ausência do medo (tanto do medo inato, quanto do aprendido)
* perda de reações emocionais apetitivas (o animal aprende que toda vez que toca a campainha significa que “tá na hora do rango”, depois da lesão da amígdala ele perde a sensação do “hummm, tocou a campainha vem coisa boa por aí”. Nesse caso o animal só tem a sensação do “Vixi, lá vem aquela comida marrom em flocos de aspecto repugnante”. Ou seja, o animal não associou a campainha ao gosto e sim ao aspecto da comida. Isso é o que eu chamo de deixar de ver o lado bom das coisas!

Por outro lado, a estimulação elétrica da amígdala promove:

* aumento da freqüência cardíaca
* aumento da freqüência respiratória
* aumento da pressão arterial
* sentimentos de medo e apreensão
* (em animais) tendências orais
* (em animais) hipersexualidade
* (em animais) mansidão

Já falei de coração e emoções, espero que o cérebro esteja bem representado também!

Josy Pontes

Palavras saborosas (para o cérebro)!

Postado em Neurociências com as tags , , , , , , em Julho 21, 2008 por Josy Pontes

Já deve ter acontecido com vocês, comigo aconteceram várias vezes!

Certa vez, uma amiga veio me ofecerer umas batatas… daquelas chips, numa embalagem diferente, na qual não prestei muita atenção! Não resisti e peguei alguns! O visual era muito agradável, mas o gosto… argh!
Foi quando eu (ainda mastigando) disse à minha amiga: “Que coisa horrível” e ela respondeu “É de frango assado!”. No mesmo momento aquele gosto horrível ficou delicioso… tudo isso em questão de segundos! Por quê? Só porque era de frango assado? Como se até então o paladar era horrível? Resultado: No final da tarde eu estava devorando um pacote sozinha!

Isso também já aconteceu também durante um coffee-break, onde um suco de morango horrível, de repente virou um suco de frutas vermelhas maravilhoso!

E o mesmo acontece para cheiros, quantas vezes eu já abominei cheiro de queijo sem saber que era de queijo! Mas depois que dizem “é queijo” a coisa muda de figura ou melhor de cheiro!

Foi aí que eu pensei como algo que é classificado como “ruim” para o cérebro, de repente, como num passe de mágica se torna delicioso???

Foi isso que um grupo de pesquisadores de Oxford estudou e publicou na Neuron em 2005. O estudo baseava-se na modulação cognitiva do processamento olfatório.

Os pesquisadores mostraram que um mesmo cheiro pode ser percebido de maneiras diferentes pelo cérebro, se esse cheiro for associado a palavras “agradáveis” ou “desagradáveis”.

Nesse experimento 20 pessoas foram submetidas a um teste de odor, nesse teste elas eram expostas a um cheiro forte semelhante ao odor corporal. Quando as pessoas viam em uma tela as palavras “queijo cheddar” ou “odor corporal” as reações cerebrais eram diferentes, isso foi analisado através de ressonância magnética funcional.

Mesmo tratando-se do mesmo odor, o teste em que apareceu a mensagem “queijo cheddar” foi mais agradável quando comparado ao teste “odor corporal”. Enquanto isso, na ressonância magnética, as regiões da amígdala e do córtex órbito-frontal apresentavam uma maior ativação quando o cheiro era associado ao termo “queijo cheddar”.

Isso mostra como o nosso cérebro associa os cheiros a coisas agradáveis ou desagradáveis.

Afinal, quem nunca ficou nervoso(a) quando sentiu o perfume da pessoa amada mesmo quando a fragrância vinha de outra pessoa? Ou até mesmo quem nunca fugiu do perfume daquela pessoa chata do trabalho mesmo sem saber se cheiro vinha da pessoa ou não?

Josy Pontes