Arquivo para Outubro, 2009

O mundo gira, a lusitana roda e a atenção desanda.

Postado em Neurociência com as tags , , em Outubro 25, 2009 por Josy Pontes

jn2009

Precisava fazer um trabalho de pesquisa relacionado à neurofisiologia. Mas, com tantos assuntos, pequisas e informações, não sabia o que escrever e nem por onde começar a procurar um tema interessante.

Resolvi ver um pouco de TV. Estava acabando a novela das sete e começando o Jornal Nacional, que não tenho o costume de assistir. Mas desta vez algo me chamou a atenção, e não foi o corte de cabelo da Fátima Bernardes, mas o globo tridimensional rodando no fundo da dela. Achei a animação interessante, mas não consegui olhar para mais nada além dela. Como tudo que se move atrai automaticamente a atenção do cérebro, os jornalistas, com seus movimentos contidos, perderam feio para o tal globo.

Fui tentar entender um pouco do que estava aontecendo com meu cérebro.

Comecei pesquisando as áreas que são responsáveis pela nossa atenção, e descobri no site VOX SCIENTIAE que, teoricamente, podemos enfocar nossa atenção sobre qualquer uma das várias modalidades sensoriais. Entretanto, na prática, quase toda a pesquisa sobre a atenção envolve a modalidade visual.

Os estudos realizados em macacos, pacientes e sujeitos normais mostraram que três áreas encefálicas estão envolvidas no controle do direcionamento da atenção para estímulos visuais em primatas: o córtex parietal posterior, o colículo superior e o núcleo pulvinar do tálamo. Danos em qualquer uma dessas regiões cerebrais levam a alterações na habilidade de redirecionar a atenção encoberta (ver testes atencionais em humanos).

 No entanto, cada uma dessas regiões desempenha funções específicas e distintas nesse processo.

thalamus

O córtex parietal posterior primeiro desengaja a atenção do foco presente. Em seguida, o colículo superior age no sentido de mover a atenção para a região do novo alvo. Por fim, o pulvinar focaliza as informações na nova região alvo, de tal forma que elas passam a ter prioridade de processamento.

Então estas áreas do meu cérebro deviam estar especialmente ativas enquanto assistia televisão.

Mesmo assim, ficou a pergunta: por que nos distraímos tão fácil com imagens em movimento? Foi então que encontrei a matéria Ei, você, preste atenção, publicada na revista Galileu em março de 2008. Ela menciona a pesquisa da Dra. Nilli Lavie, da Universidade de Londres, que realizou uma série de experimentos em 1997 e provou que, por si só, a concentração não é suficiente para eliminar distrações. Mais: existe um limite de entendimento superior ao que nossos olhos podem perceber.

Em um experimento, a Dra. Nilli Lavie pediu aos voluntários que completassem um teste de palavras em uma tela de computador enquanto os distraía. Eles deveriam dizer se as palavras que apareciam na tela estavam em letras maiúsculas ou minúsculas ou, em uma tarefa mais marota, contar as sílabas de cada uma delas. Nos limites da tela, a simulação de um caminho de estrelas se movendo dava a sensação de movimento para frente e para trás, uma distração que Lavie pediu que fosse ignorada. Através de ressonância magnética funcional (fMRI), ela monitorou a atividade em uma parte do cérebro chamada V5, no córtex visual, acionada quando experimentamos sensações como a de movimento.

Os resultados foram surpreendentes. A região V5 estava ativa durante as tarefas simples, mesmo com os voluntários ignorando o caminho de estrelas. Nesse ponto, uma das antigas teses caiu por terra: é impossível filtrar as distrações simplesmente se concentrando. Mas isso não foi tudo. A imagem do cérebro também mostrou que, quando a tarefa ficava mais difícil, a região V5 tinha mais sucesso em ignorar as estrelas.

Ficou a pergunta: o que aconteceu durante as tarefas mais difíceis? “Temos uma capacidade limitada de absorver informação visual”, diz Lavie. Ela descobriu que uma tarefa visualmente mais intensa, como processar o caminho de estrelas junto às palavras, “carrega” a atenção do cérebro. Ficamos cada vez mais cegos para as distrações, o que leva à melhora no desempenho. A reação é mais rápida, e os erros caem. Resumindo, quanto mais você é forçado a se concentrar, mais dificilmente será distraído.

Essa pesquisa me fez pensar: se o Jornal Nacional apresentasse alguma notícia realmente interessante como, por exemplo, o que acontece no último capítulo do desenho Caverna do Dragão, será que eu deixaria de prestar atenção no tal do Globo e me focaria nos apresentadores? Outra: se eu passar a assistir o jornal todos os dias, será que a animação se tornaria irrelevante? Esta poderia ser uma boa experiência para o futuro.

Aline Millani Carneiro

“He is a Jackass!”

Postado em Neurociência com as tags , em Outubro 19, 2009 por Josy Pontes

021928254-exh00

Durante a premiação da MTV Americana VMA (Vídeo Music Awards) deste ano, que premia os melhores da música segundo a emissora, o rapper Kanye West invadiu o palco da premiação e interrompeu o discurso de agradecimento de Taylor Swift, que ganhou o prêmio de melhor vídeo – feminino, com o seguinte discurso: “Hey, estou feliz por você e vou deixar você terminar, mas Beyoncé é bem melhor e tem um dos melhores clipes de todos os tempos”, disse o cantor ao arrancar o microfone da mão da vencedora, deixando-a sem reação alguma.

Até ai tudo bem, acontece com as melhores celebridades e ela não merecia o prëmio mesmo, mas o assunto teve uma repercussão negativa nos diversos canais de comunicação quanto o comportamento de Kanye West, que foi muito criticado por fãs e artistas, e que para ajudar tomou proporções ainda maiores quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deixou escapar um comentário nos bastidores de uma entrevista ao canal da rede NBC, onde chamou o cantor de babaca, com toda informalidade que lhe coube na hora: ‘’He is a Jackass!!’’

O que levaria o representante de um país, uma pessoa extremamente polida, educada a se expressar da melhor forma, a se referir a alguém assim? Mesmo que na brincadeira, as ofensas e xingamentos já fazem parte do nosso vocabulário, para uns mais, outros menos, mais ofensivos às vezes menos, como o caso do Presidente Obama,  mas de fato funciona quase que como interjeição para maioria.

No nosso cérebro, grosseiramente falando, o hemisfério esquerdo é responsável pela linguagem e o hemisfério direito pelo conteúdo emocional da linguagem. O processamento da linguagem ocorre no córtex cerebral que possui áreas pré-motoras e motoras que controlam a fala e a escrita; A área de Wernicke processa e reconhece as palavras faladas; e o córtex pré-frontal controla a personalidade e o comportamento social adequado.

i_10_cr_lan_1b

Os palavrões e xingamentos envolvem o sistema límbico e os gânglios da base (o gânglio controla e o límbico libera)

O sistema límbico: hospeda a memória, as emoções e os comportamentos primários. Tem como estruturas o hipocampo, tálamo, amígdala, hipotálamo,  Todas estas áreas são muito importantes para a emoção e reações emocionais;

Gânglios da base: têm grande participação no controle de impulsos e funções motoras.

Enquanto a linguagem comum ocorre por conta da massa cinzenta, o neocórtex, os palavrões ocorrem no sistema límbico, considerado uma zona mais primitiva, traduzindo assim certas emoções de forma simples e primitiva (e pelo visto sinceras!).

Portanto, os palavrões seriam uma expressão nua e crua de fato, mas carregada de emoções. O que pode ser explicado também pelo seu papel cultural. Enfim, nada mais natural do que um palavrãozinho, um xingamento quase sempre inocente para se expressar de vez em quando.

Se o Barack Obama pode, porque eu não!

P@##@, Yes, we can!

Vanessa Pessota

Comentário: Esse texto e o próximo são os 2 melhores trabalhos dos meus alunos de neurofisiologia do curso de especialização em “Atividade física, exercício físico e aspectos psicobiológicos” da UNIFESP. Quem sabem esses não são os futuros divulgadores da Ciência... hein hein? Talento eles já tem!

Parabéns Vanessa!

Josy Pontes

O teste do Marshmallow!

Postado em Neurociência, Uncategorized com as tags , , em Outubro 18, 2009 por Josy Pontes

marshmallow

Toda criança sabe o quanto é difícil ter que comer toda a comida pra ganhar a sobremesa, ou até mesmo ter que esperar até a hora do parabéns pra poder comer os brigadeiros! Principalmente quando os brigadeiros estão ali, em forminhas laminadas em cima de uma mesa colorida, cheia de enfeites… Isso é tortura para uma criança!

Há algum tempo escrevi no post “Sair ou Estudar? Eis a questão” como o cérebro decide se esforçar um pouquinho mais para ter uma recompensa maior. Afinal, vale a pena esperar a hora do parabéns para poder saborear todos os tipos de docinhos espalhados na mesa!

Algumas áreas do cérebro envolvidas nesse tipo de decisão (baseada no esforço):

Amígdala cerebral: que é uma estrutura altamente associada às emoções e responsável por informar o nosso córtex cingulado anterior o quanto uma recompensa nos agrada, o quanto ela vale a pena.

Córtex cingulado anterior: que avalia os custos e benefícios do problema em questão.

Núcleo accumbens: uma região relacionada com as sensações de prazer e recompensa.

Você deve estar se perguntando. Porque será que estou falando tudo isso de novo???
A resposta é simples…

O vídeo a seguir mostra esse sistema de recompensa (baseada no esforço) EM AÇÃO!

E bota esforço nisso!

Josy Pontes