Um pouco de estresse é bom… e o cérebro gosta!

Dessa vez não vou falar de emoções… mas não tenho como fugir (pelo menos não dessa vez), uma vez que não temos como separar razão de emoção (Descartes que me perdoe!).

Quando falamos de estresse, falamos também de eixo HPA (aquela comunicação entre Hipotálamo-Hipófise (ou Pituitária… por isso o P)-Adrenal.

Relembrando, o hipotálamo é aquela região do cérebro que produz o CRF (fator ou hormônio liberador das corticotrofinas), que estimula a hipófise (ainda no cérebro) a liberar o ACTH (hormônio adrenocorticotrófico… apertando a tecla SAP e traduzindo esse palavrão: hormônio que estimula a córtex da glândula adrenal, perto dos rins). Estimulando a córtex adrenal temos a liberação do cortisol, esse é o famoso hormônio do estresse!

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Agora, vamos imaginar a seguinte situação… Estamos numa festa e de repente, aquele grupinho de canto que até agora parecia só observar de longe, resolve sair da festa… dar uma volta ou procurar um canto mais discreto da festa… Pronto, agora chegamos ao assunto, DROGAS!

O grupo procura o melhor lugar, ou seja, aquele longe das pessoas, da polícia e de qualquer outra criatura que possa puni-los ou dar-lhes aquele baita sermão. A situação é estressante? Sim, sem dúvida… mas e o kiko?

A revista Neuron de julho deste ano publicou uma revisão que associa os sistemas de estresse do cérebro ao vício!

Segundo o autor, a ativação do eixo HPA está associada ao uso de drogas e a desregulação desse eixo está relacionada ao vício.

Ou seja, um pouco de estressante é prazeroso pro cérebro, mas em pequenas doses!

Só que, quando o hipotálamo libera o CRF ele não ativa só a hipófise, mas também ativa uma série de outras estruturas fora do hipotálamo e essa ativação extra-hipotalâmica (incluindo áreas ligadas às emoções) tem tudo a ver com a fase de abstinência, todo mundo sabe como fica um usuário na abstinência da droga. Estresse é pouco, então é de se esperar que esse sistema esteja alterado.

Por exemplo, em alcoólatras na abstinência de álcool há um aumento de CRF na amígdala (estrutura do cérebro ligada às emoções) e na estria terminal (outra região do cérebro) e os autores sugerem que é esse aumento de CRF nessas regiões que está por trás do comportamento ansioso e pelas recaídas dos álcool-dependentes.

Figura que mostra a estria terminal e a amigdala cerebral.

Figura que mostra a estria terminal e a amígdala cerebral.

Em ratos álcool-dependentes (sim, ratos “alcoólatras”), se aplicarmos um antagonista de CRF (que não deixa o CRF agir) na amígdala, esse ratos possuem uma diminuição no comportamento ansioso associado à abstinência.

Além de diminuir a ansiedade, também diminui as recaídas durante essa abstinência. Ainda bem que os ratos não costumam frequentar bares, baladas e nem as churrascadas da faculdade!
O que uma birita não faz não é?

E o mesmo resultado foi observado com cocaína, heroína e nicotina.

Mudando de pato pra ganso, ou melhor de CRF pra noradrenalina. A situação é parecida, bloqueando a ação desse neurotransmissor nas mesmas regiões (estria terminal e amígdala), também há uma diminuição da ansiedade e das recaídas na abstinência. Isso vale pra álcool, cocaína, nicotina e opióides como a morfina.

Resumindo, o estresse aumenta o CRF e a noradrenalina que estão ligados ao gostinho de “quero mais” típico das drogas. Sem CRF e noradrenalina na amígdala e na estria terminal, a pessoa em abstinência fica menos ansiosa e menos propensa a recaídas.

No caso das drogas, vimos que o aumento do CRF na abstinência é marcante. Porém, isso torna-se um ciclo: a pessoa tem a droga, usa, acaba, tem a droga, usa, acaba… e assim sucessivamente. Isso é que é brincar com o eixo HPA! Tanto que o eixo HPA cria uma “tolerância”, ele fica cansado e deixa de responder.

Esse comprometimento do eixo HPA está relacionado ao estado emocional negativo da ausência da droga e estado negativo vai embora quando se administra “só mais uma vez”, mas essa uma vez acaba se tornando várias vezes e a quantidade da droga é cada vez maior porque o eixo HPA já não é mais aquele que logo se manifestava.

Seria dessa forma que a ativação do eixo HPA exerceria um papel imporante no mecanismo de recompensa do cérebro quando se começa a usar droga, mostrando que aquilo é gostoso, mas como o tempo a desregulação torna tudo mais dificil e menos prazeroso.

Por esse motivo e por muitos outros (mas os outros motivos são cenas dos próximos capítulos) é necessário aumentar a dose sentir o mesmo prazer do início…

É como dizem por aí… o “barato”sai caro!

Josy Pontes

3 Respostas para “Um pouco de estresse é bom… e o cérebro gosta!”

  1. Prof. Wagner Diz:

    Grande Dra. Josy, sua exposição foi linear!
    Mas deixe-me por uma curvinha de curiosidade?
    Depois que foi divulgada a matéria Mulheres Tem Menos Sinapses no Agência FAPESP, postulando que “os homens têm maior densidade de sinapses em todas as camadas corticais do neocórtex temporal, região envolvida em funções como memória, linguagem e processamento visual” não poderíamos imaginar também um eixo HPA com feedbacks distintos para os sexos?
    Um forte abraço.
    Wi.

  2. Cadê a Josy?!?!?

  3. Boa matéria, sempre quis saber a explicação cientifica para isso ;)

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