Acreditar ou não em Deus… E o cérebro com isso?

Desde a minha graduação eu escuto que o fenótipo é o genótipo mais o ambiente! Pura balela? Não, nunca duvidei que isso fosse uma verdade.

Diferente dos meus longos 4 anos de catecismo, praticamente uma faculdade de Teologia.
Sim! Eu bombei no catecismo!
Espantoso?
E se eu disser que bombei duas vezes?
De espantoso passa no mínimo para o quase impossível! Quase… por que isso realmente aconteceu! Talvez se as freiras daquela época soubessem que viraria uma pessoa apaixonada pela neurociência, talvez elas compreenderiam minha rebeldia de criança espertinha em saber que a mulher veio de uma costela, ou que existia uma cobra falante em um jardim.

Mas crenças a parte…  o que o cérebro tem a ver com isso?

Depois do artigo publicado por Han & Northoff nesse mês na Nature Reviews Neuroscience, não há dúvidas que o ambiente e a crença ou não em Deus altere as vias cerebrais, ou seja o cérebro de um ateu e de um crente, isto é, que crê em um Deus independente da religião, às vezes “pegam caminhos neuronais” diferentes para executar uma mesma tarefa.

Foi isso que esses pesquisadores mostraram em seu experimento.

Eles selecionaram ateus e cristãos e fizeram as mesmas perguntas. Essas perguntas consistiam em julgar a si mesmos e pessoas famosas. Eles deveriam classificar as pessoas citadas pelo pesquisador como: corajoso, desleal, infantil e outros adjetivos.

Enquanto respondiam as perguntas essas pessoas eram submetidas a uma Ressonância Magnética Funcional, onde é possível ver que áreas do cérebro estão ativadas.

O córtex frontal é a região do cérebro envolvida no raciocínio, na tomada de decisões, em julgamentos do que é certo e errado, bom e ruim.
A região dorsomedial (que fica na parte de cima, bem no meio do córtex frontal) é associada à “colocar-se no lugar do outro”. Toda vez que nos colocamos no lugar de alguém essa região é ativada.
Já a região ventromedial (que fica na parte debaixo do córtex frontal, bem no meio) é reponsável pelo nossa auto-percepção, como nós nos julgamos. Todos nós sabemos quando estamos felizes, tristes, não é? Pois é, a região ventromedial do córtex frontal faz isso!

Quando pediram para ateus e cristãos julgarem a si mesmos e outras pessoas (pessoas famosas). Eles ativaram áreas diferentes do cérebro.

Os cristãos ativaram a parte dorsomedial do córtex frontal.
Enquanto os ateus ativaram a região ventromedial do córtex frontal.

Ressonância magnética funcional (ateus e cristãos)

Ressonância magnética funcional (cristãos acima e ateus abaixo)

Ou seja, os ateus na hora de julgarem se baseiam na sua própria vida. Como o cristianismo é baseado no julgamento de Deus, isto é, o que Deus acha certo ou errado (pecado) e os cristãos acabam seguindo esse padrão, não é de se espantar que a área ativada fosse a dorsomedial. Portanto, o estudo sugere que os cristãos se colocariam no lugar de Deus na hora de julgar a si mesmos e aos outros. Interessante não?

Quem nunca julgou (baseado ou não nos olhos divinos), que atire a primeira pedra!

Josy Pontes

5 Respostas para “Acreditar ou não em Deus… E o cérebro com isso?”

  1. Ah Josy! Que história é essa de catecismo de freirinhas e procurando Deus com ressonância magnética!

    As freirinhas não podiam explicar muito para uma criança sapeca como V. disse que era!

    Por exemplo, com que idade V. entenderia que há uma poesia transcedental lá no Talmud, o texto central das tradições rabínicas antecedendo a Bíblia hebráica, que revela que “a mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada”?
    Seria como explicar para uma criancinha hoje o princípio físico da ressonância magnética. Eu falaria para ela que é como um chapéu mágico adivinhando nossos pensamentos. Depois crescemos e o nível do conhecimento e do discurso deve crescer também.

    E não sei quem brincou há tempos (ainda vou achar!) que esta busca de padrões neuronais comportamentais estão sendo patrocinadas pelas empresas de marketing e publicidade, para que os laboratórios desenvolvam perfis humanos de aceitação de marcas e produtos do mercado.

    Se a uma simples pergunta de certo ou errado provoca reações corticais distintas conforme a crença do indivíduo, faltava o aparelho para detectá-las. Nada como ter a certeza da reação pretendida a partir de estímulos adequados. Imagine o potencial disto para o comércio e para o capitalismo selvagem!

    O Admirável Mundo Novo de Huxley se aproxima!

    Ui … que mêdo!

    Abraço. Wagner.

  2. Josy Pontes Diz:

    Prof. Wagner… seus comentários devem forçar a formação de novas sinapses e síntese de proteínas nunca antes sintetizadas em meu humilde cérebro!

    Falando de Talmud, para mim, tudo parece muito bonito e poético, porém nada científico. Agora, caímos em questões pessoais… Crer ou não crer… Eis a questão! Relembrando o bom e velho Shakespeare!

    Se ao invés, de lecionar as peripécias e epopéias de Jesus Cristo, as freiras tivessem falado de ressonância magnética, talvez a pequena Josy não tivesse acreditado nisso também! Para uma menina de apenas 13… 14 anos com um pouco de senso crítico deve ser difícil acreditar num chapéu mágico que lê pensamentos! Por mais Saint-Exupery e Monteiro Lobato que essa criança leia…
    E nessa hipótese eu nunca tinha pensado… reconheço que é uma falha minha não pensar em todas as hipóteses! Mas, estou aprendendo…

    Não acredito que as empresas de marketing e publicidade estejam patrocinando as pesquisas que buscam padrões cerebrais comportamentais, mas não nego que elas não estejam loucas por isso! Afinal, elas vem tentando nos empurrar coisas a tanto tempo!

    Não sei se as empresas tem noção do que um experimento como esse representa, mas se tiverem, o teor das reuniões empresariais mudará!
    Os funcionários não ouvirão mais: “Como vender melhor nossos produtos?” e sim “Como promover uma maior ativação do núcleo accumbens dos nossos consumidores?”

    Isso sim, é uma revolução industrial!

    Obrigada por mais uma síntese proteica!
    Abraços da eterna aluna

    Josy

  3. Wagner Sato Ushikoshi Diz:

    Olá Josy, me desculpe intrometer, mas só para não haver confusão com nomes, pois como também sou professor (de clínica de pequenos animais), com ênfase em neurologia, temo que me confundam com o meu xará acima. Assim, sempre que eu postar algo, usarei meu nome completo.
    Não sou de opinar sobre religião, aliás não fiz comunhão nem catecismo, por isso desculpe minha ignorância sobre o assunto, mas concordo com a sua rebeldia, principalmente por que desconfio que as freiras também não conheciam Talmud, mas acreditavam fielmente que vieram da costela.
    Ou pelo menos espero que sim, pois mentir para uma criancinha ou subestimar a sua capacidade de compreensão devia ser considerado pecado. É quase como contar a fábula da corrida do coelho com a tartaruga como se tivesse realmente acontecido, mas omitir a moral da história. Pior, deixar que ela concluia que a tartaruga é mais rápida. Mentir ou contar uma história pela metade por que a outra parte é considerada incapaz de entender a verdade… bom argumento!
    Quanto essa história de que a ciência não deve progredir, pois pode ser utilizada de maneira inadequada… isso sim é uma conspiração.
    Gostei muito do seu blog
    Abraços

  4. Josy Pontes Diz:

    Prof. Wagner Sato

    Fiquei imensamente honrada com seu comentário e feliz por ter alguém tão importante visitando meu humilde blog. Qualquer erro, me avise. Afinal, tenho aprendido mais com os comentários do que com a leitura dos úlltimos artigos publicados em revistas de alto impacto.

    Concordo quando diz que: “mentir para uma criancinha ou subestimar a sua capacidade de compreensão devia ser considerado pecado”. Isso sim é pecado! E dos “brabos”.

    Isso seria subestimar a capacidade de aprendizado e da plasticidade do sitema nervoso central de uma criança. E já não é mais novidade a neurogênese em bulbo olfatório e hipocampo do cérebro de adultos.

    Quanto a contar histórias pela metade por simplesmente desconhecer a verdade da história inteira, também não é novidade a confusão que isso causa no cérebro adulto, imagine no de uma pré-adolescente.

    Tudo pra mim era muito bonito e mágico, mas me recusava a falar “Amém”, por que eu sabia do significado do Amém: Sim, eu creio. Porque dizer o amém se eu não acreditava?

    Gosto muito de conversar sobre religião, mas não gosto de escrever sobre, pois é uma questão muito particular.

    Mas hoje acho que posso tentar (só tentar) explicar o que acontecia.
    Meu cérebro já conhecia os ofídios e conhecia os humanos, e eu sabia que as cobras não falavam, ou seja, o meu cérebro computava a imagem de um ofídio e a de um humano, meu hipocampo resgatava minhas memórias envolvendo as duas coisas e isso não fazia o menor sentido pra mim.
    Hoje as pessoas me falam… “é uma metáfora!”. Mas eu não podia dizer “Sim, eu creio” para uma metáfora. E esse é só um exemplo de muito dos dogmas que eram pregados (e ainda são)!

    Saindo do tão polêmico assunto e entrando em outro. Concordo que a ciência deve progredir sempre!!!! Agora, o bom proveito ou não, sai do nosso controle.
    É aí que eu pergunto:

    E o que não do nosso controle???

    Muito obrigada pelo seu comentário
    Ele contribuiu e muito pra minha plasticidade neuronal!

    Abraços
    Josy Pontes

  5. Olá Josy!
    V. escreveu no post anterior: “Não acredito que as empresas de marketing e publicidade estejam patrocinando as pesquisas que buscam padrões cerebrais comportamentais, mas não nego que elas não estejam loucas por isso!”

    Saiu hoje (31) no OESP “o partido também começou a flertar com as ideias do neurocientista americano Drew Westen, da Emory University, em Atlanta. Suas teses influenciaram a campanha democrata de Barack Obama em 2008. Autor do best-seller The Political Brain, ele foi convidado pelo Instituto Teotônio Vilela, ligado aos tucanos, para dar palestra, em março, que deixou deslumbrados os políticos do partido.”
    (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090531/not_imp379697,0.php)

    Minha tese está se comprovando: a neurociência está sendo estudada pelo viés mecanicista e está a serviço da propaganda e marketing!!!

    Wagner.

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