
Precisava fazer um trabalho de pesquisa relacionado à neurofisiologia. Mas, com tantos assuntos, pequisas e informações, não sabia o que escrever e nem por onde começar a procurar um tema interessante.
Resolvi ver um pouco de TV. Estava acabando a novela das sete e começando o Jornal Nacional, que não tenho o costume de assistir. Mas desta vez algo me chamou a atenção, e não foi o corte de cabelo da Fátima Bernardes, mas o globo tridimensional rodando no fundo da dela. Achei a animação interessante, mas não consegui olhar para mais nada além dela. Como tudo que se move atrai automaticamente a atenção do cérebro, os jornalistas, com seus movimentos contidos, perderam feio para o tal globo.
Fui tentar entender um pouco do que estava aontecendo com meu cérebro.
Comecei pesquisando as áreas que são responsáveis pela nossa atenção, e descobri no site VOX SCIENTIAE que, teoricamente, podemos enfocar nossa atenção sobre qualquer uma das várias modalidades sensoriais. Entretanto, na prática, quase toda a pesquisa sobre a atenção envolve a modalidade visual.
Os estudos realizados em macacos, pacientes e sujeitos normais mostraram que três áreas encefálicas estão envolvidas no controle do direcionamento da atenção para estímulos visuais em primatas: o córtex parietal posterior, o colículo superior e o núcleo pulvinar do tálamo. Danos em qualquer uma dessas regiões cerebrais levam a alterações na habilidade de redirecionar a atenção encoberta (ver testes atencionais em humanos).
No entanto, cada uma dessas regiões desempenha funções específicas e distintas nesse processo.

O córtex parietal posterior primeiro desengaja a atenção do foco presente. Em seguida, o colículo superior age no sentido de mover a atenção para a região do novo alvo. Por fim, o pulvinar focaliza as informações na nova região alvo, de tal forma que elas passam a ter prioridade de processamento.
Então estas áreas do meu cérebro deviam estar especialmente ativas enquanto assistia televisão.
Mesmo assim, ficou a pergunta: por que nos distraímos tão fácil com imagens em movimento? Foi então que encontrei a matéria Ei, você, preste atenção, publicada na revista Galileu em março de 2008. Ela menciona a pesquisa da Dra. Nilli Lavie, da Universidade de Londres, que realizou uma série de experimentos em 1997 e provou que, por si só, a concentração não é suficiente para eliminar distrações. Mais: existe um limite de entendimento superior ao que nossos olhos podem perceber.
Em um experimento, a Dra. Nilli Lavie pediu aos voluntários que completassem um teste de palavras em uma tela de computador enquanto os distraía. Eles deveriam dizer se as palavras que apareciam na tela estavam em letras maiúsculas ou minúsculas ou, em uma tarefa mais marota, contar as sílabas de cada uma delas. Nos limites da tela, a simulação de um caminho de estrelas se movendo dava a sensação de movimento para frente e para trás, uma distração que Lavie pediu que fosse ignorada. Através de ressonância magnética funcional (fMRI), ela monitorou a atividade em uma parte do cérebro chamada V5, no córtex visual, acionada quando experimentamos sensações como a de movimento.
Os resultados foram surpreendentes. A região V5 estava ativa durante as tarefas simples, mesmo com os voluntários ignorando o caminho de estrelas. Nesse ponto, uma das antigas teses caiu por terra: é impossível filtrar as distrações simplesmente se concentrando. Mas isso não foi tudo. A imagem do cérebro também mostrou que, quando a tarefa ficava mais difícil, a região V5 tinha mais sucesso em ignorar as estrelas.
Ficou a pergunta: o que aconteceu durante as tarefas mais difíceis? “Temos uma capacidade limitada de absorver informação visual”, diz Lavie. Ela descobriu que uma tarefa visualmente mais intensa, como processar o caminho de estrelas junto às palavras, “carrega” a atenção do cérebro. Ficamos cada vez mais cegos para as distrações, o que leva à melhora no desempenho. A reação é mais rápida, e os erros caem. Resumindo, quanto mais você é forçado a se concentrar, mais dificilmente será distraído.
Essa pesquisa me fez pensar: se o Jornal Nacional apresentasse alguma notícia realmente interessante como, por exemplo, o que acontece no último capítulo do desenho Caverna do Dragão, será que eu deixaria de prestar atenção no tal do Globo e me focaria nos apresentadores? Outra: se eu passar a assistir o jornal todos os dias, será que a animação se tornaria irrelevante? Esta poderia ser uma boa experiência para o futuro.
Aline Millani Carneiro