Foi sem querer querendo…

Publicado em Neurociência com as tags , às Junho 24, 2009 por Josy Pontes

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Cobrar o aluguel, não é um tarefa das mais fáceis para o Sr. Barriga (Edgar Vivar) do seriado Chaves (El Chavo Del Ocho)!

Além de nunca receber os aluguéis atrasados do Seu Madruga (Ramón Valdez), ele ainda é recebido (todas as vezes) com uma pancada do desatento Chaves (Roberto Bolaños) que já dispara sua célebre frase.
Embora, ele explicasse que era sem querer querendo, Sr. Barriga sempre lhe dava uma bronca!

O “sem querer” sempre nos dá a sensação que poderíamos ter evitado pisar no pé de alguém, mas quando vamos evitar, já é tarde demais, nosso pé já está lá, em cima do pé da outra pessoa e só nos resta dizer “Desculpa, foi sem querer!”

Mas graças a Neurociência, Chaves ganhou um grupo de neurocientistas “advogados”. Entre eles, Mazaheri da Universidade da Califórnia que publicou um artigo na Human Brain Mapping desse ano que explica o  que acontece no nosso cérebro quando fazemos algo “sem querer querendo”!

Para isso, eles recrutaram 14 voluntários para participar de um teste. Numa tela aparecem números de 1 a 9 de forma aleatória. A cada número que aparecesse o voluntário apertava um botão, exceto quando aparecia o número 5.

Enquanto isso, suas ondas cerebrais eram registradas através da magnetoencefalografia (MEG), que é como se fosse um super eletroencefalograma, bem mais preciso!

Então, a pessoa deveria se manter atenta ao número que aparecesse na tela, e manter a atenção é impossível com uma brincadeira chata dessas!

E o óbvio aconteceu, as pessoas erraram! Em 40% das vezes que apareceu o 5, quando os voluntários percebiam já tinham apertado o botão sem querer querendo!
E toda vez que a pessoa errava, antes do erro acontecer, a MEG mostrava ondas alfa 25% mais intensas na região occipital (parte de trás do cérebro) área envolvida com a visão. É como se a região responsável pela visão desse um rápido cochilo, ficasse desatenta!

lobo occipital

Ou seja, o cérebro já sabe que vai errar, antes mesmo de errar!

Quem disse que Chaves não é cultura?
Chaves também é Ciência!

Josy Pontes

Entre tapas e beijos…

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , , às Maio 20, 2009 por Josy Pontes

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O que esses casais têm em comum?

Pra quem assistia o seriado “A gata e o rato” (Moonlighting) na década de 80, protagonizado por Cybyll Shepherd (Madolyn “Maddie” Hayes) e o até então desconhecido Bruce Willis (David Addison).
E depois acompanhou o desfalque violento de vasos cenográficos na novela “O cravo e a rosa”  (Rede Globo, 2000) promovido por Catarina Batista (Adriana Esteves) e Julião Petruchio (Eduardo Moscovis) sabe muito bem o que esses casais têm em comum!

Era uma relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem!

Não só na ficção, a vida nos mostra que esses sentimentos se confundem muitas vezes e a neurociência mostra o que esses sentimentos têm em comum!

O pesquisador Semir Zeki do laboratório de Neurobiologia da University College London disse em entrevista ao site Ciência Hoje que embora aparentemente antagônicos, os dois sentimentos se confundem e interagem em muitos momentos:

“O dia-a-dia providencia exemplos em que essas conflitantes emoções se entrelaçam”

O que nos faz odiar alguém? Existe uma alguma estrutura no nosso cérebro responsável pelo ódio?

Era essa a pergunta que Zeki e John Paul Royama tinham em mente quando escreveram o artigo “Neural Correlates of Hate” na PLoS One em outubro de 2008.

Para isso, os pesquisadores pegaram 17 pessoas com muito ódio no coração, ops… no cérebro!

Tratavam-se de pessoas que tinham um forte ódio por determinada pessoa, geralmente um ex-amor ou alguém do trabalho, com exceção de uma pessoa que tinha ódio por uma figura política. O que cá entre nós não é muito difícil de achar!

Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral dessas pessoas quando olhavam fotos da pessoa odiada e de pessoas neutras, ou seja que “não fedem e nem cheiram” e observaram que várias estruturas são ativadas quando vemos aquela pessoa que não gostamos muito!

Eis aqui as regiões:

PÓLO FRONTAL: A pontinha da frente do cérebro é responsável, entre muitas coisas, por prever a ação da outra pessoa (O que ela vai fazer?).

CÓRTEX PRÉ-MOTOR: Essa região do córtex é responsável por planejar e executar qualquer movimento.

Ou seja, essas duas regiões estão ligadas a reações de ataque e defesa, então quando vemos alguém que odiamos é como se estivéssemos diante de um inimigo que está prestes a nos fazer um mal e o nosso cérebro já se prepara para reagir, mesmo que seja apenas uma foto!

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Um fato muito interessante é que algumas estruturas que são ativadas no amor também são ativadas no ódio!

PUTÂMEN (lado direito): Também atua no planejamento motor, mas também é ativado quando sentimos desprezo, repugnância e medo.

ÍNSULA: Dentre as várias funções da ínsula, uma delas é o envolvimento na percepção de estímulos desagradáveis, angustiantes.

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Se o putâmen e a ínsula estão relacionados a sentimentos ruins, porque estas estruturas também estão ativas no amor?

Quando nosso cérebro detecta um (uma) rival que apresente perigo! Ou então, segundo Zeki, se um companheiro nos trai, o ódio resultante é provavelmente muito mais intenso do que se tivéssemos sido traídos por um estranho.

Não faz sentido???

Josy Pontes

O que eu vim fazer aqui mesmo???

Publicado em Neurociência com as tags , , , , às Janeiro 25, 2009 por Josy Pontes

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Ah! Lembrei… falar de memória!

Se alguém lhe perguntasse: Você tem algum problema de memória?

Provavelmente você dirá que sim, mesmo que tenha pensado numa resposta negativa, saiba que muita gente se julga ser ruim no quesito memória, mesmo quando sua memória é absolutamente normal!

Segundo Iván Izquierdo em seu livro “A arte de esquecer: Cérebro, Memória e Esquecimento” diz que esquecer é normal… mais do que a gente pensa!

Duvida? Vamos as evidências…

1- Tente contar a alguém (ou a você mesmo) tudo o lhe aconteceu ontem (detalhadamente), quanto tempo vc levaria pra concluir essa tarefa? 10, 15, 20 minutos… ou até mesmo meia-hora! Mas o que aconteceu com as outras 23 horas e meia?

2- Se você foi a padaria, ao banco ou algum outro lugar que houvesse fila tente descrever a roupa da pessoa que estava a sua frente.

3- Caso você tenha enfrentado um congestionamento daqueles, tente lembrar da placa do carro que estava a sua frente. Tá bom, vou facilitar: tente lembrar a cor e marca do carro…

Certamente você não obteve êxito em nenhuma das tarefas!
E a neurociência explica o porquê!

Na tarefa número 1, você pode perceber quanta coisa passa batido pela nossa consciência, nosso cérebro capta tudo mas pouca coisa fica registrada. E o que o cérebro deixa registrado? O que é importante!

Por que deixar gravado em nossa memória a roupa da pessoa a nossa frente na fila do banco, ou o número da placa do carro que nos acompanhou durante todo o congestionamento? Inútil não?

Vamos usar os mesmos exemplos…
Quer ver essas informações ficarem registradas no cérebro?

Imagine que a pessoa a sua frente é uma mulher (ou um homem, no caso das mulheres) super atraente, daquelas (es) de parar o trânsito! Certamente você lembrará não só da roupa, mas também das formas que ocupavam aquela roupa! Ou então, imagine que a pessoa a sua frente estava fantasiada de girafa!

E pq nesse caso você lembrou? Por que chamou a atenção! Ou seja, de alguma forma aquela informação foi importante para o seu cérebro.
E se o carro a sua frente no congestionamento fosse uma ferrari vermelha linda, reluzante, recém saída da fábrica? Certamente você lembraria!

Quantas vezes saímos da sala e quando chegamos no quarto pensamos: O que eu vim fazer aqui mesmo?
Aí você volta pra sala, pensa um pouco e… “Ah! A  tesoura!”
Isso por que você não devia estar atento quando pensou “vou pegar a tesoura”, provavelmente você estava pensando em mil coisas ao mesmo tempo! Ou seja, você não estava prestando atenção, logo a tesoura passou desapercebida pelo cérebro!

Nós temos 3 tipos de memórias:

MEMÓRIA DE TRABALHO: é aquela que usamos para decorar um número de telefone rapidamente antes de discar, ela dura muito pouco e é limitada. Dura pouco por que logo depois que você disca, o número desaparece e é  limitada pq você decora um número de telefone, mas não 10!
Outro exemplo prático pra mostrar o que é a nossa memória de trabalho e esse exemplo é para quem viveu a década de 80, quem não lembra do brinquedo Genius da Estrela. Nesse brinquedo era necessário decorar a sequência de cores mostrada, então sua memória de trabalho ficava repetindo “vermelho, verde, verde, amarelo, vermelho, azul”.

Essa memória depende dos neurônios do nosso córtex pré-frontal, a parte do cérebro que fica mais a frente. Ela capta o presente, esses neurônios se comunicam com outras regiões do cérebro que analisam essas informações e as armanezam num contexto maior, ou seja, você já não lembra mais a sequência de cores, mas lembra que estava jogando há uma hora atrás.

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MEMÓRIA DE CURTA DURAÇÃO: Pois é… é esse o contexto maior que eu estava falando acima! Você sabe o que estava fazendo há uma, duas horas atrás. Essa memória dura um poquinho mais de tempo, algumas horas. É ela que falha quando chegamos ao quarto e esquecemos o que estávamos procurando. Sem essa memória seria impossível acompanhar um filme ou uma conversa, nos perderíamos na história e não entenderíamos o contexto.

Para esse tipo de memória nós usamos o hipocampo (estrutura responsável não só por formar as memórias, mas também por evocá-las) localizado no lobo temporal, outra região envolvida é o chamado córtex entorrinal, uma região localizada bem abaixo do hipocampo.

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MEMÓRIA DE LONGA DURAÇÃO: é aquela que dura dias, semanas, meses, anos e décadas. Esse tipo de memória exige do hipocampo algo mais complexo, como expressão de alguns genes, síntese de proteínas. Dependendo do tipo de memória, esse processos não ocorrem apenas no hipocampo, mas em outras regiões do córtex cerebral. É como se os circuitos fossem se modificando a cada nova memória armazenada.

É como se o cérebro fosse uma grande cidade. Para construirmos os prédios (memórias de longa duração) precisamos de cal, cimento, pedra (processos de síntese proteica, expressão gênica). Temos diversos prédios diferentes na nossa cidade, alguns prédios são demolidos (coisas que esquecemos), alguns prédios vão crescendo (coisas que sempre lembramos), e outros são construídos ou reformados (coisas que vamos aprendendo). Por isso, conforme as pessoas vão vivendo experiências diferentes, elas vão construindo e moldando prédios diferentes, ou seja, cada um tem a sua “cidade de memórias” no cérebro!

RESUMÃO:

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Josy Pontes

O cérebro por ele mesmo…

Publicado em Neurociências com as tags às Dezembro 17, 2008 por Josy Pontes

Esse vídeo é tão genial, que dispensa qualquer texto!

Aprendendo neuroanatomia com Pink & Cérebro:

Brainstem, brainstem!

Josy Pontes

Espelho, espelho meu… existe alguém que sinta o mesmo que eu?

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , às Dezembro 14, 2008 por Josy Pontes

Assista os vídeos abaixo:

Certamente, você pensou “nossa!” ou fez alguma outra interjeição de dor ou espanto!

Se não fez, imagine que essas cenas tenham acontecido na sua frente!
Ou até mesmo imagine aquelas vídeos-cassetadas onde o cara bate as “partes baixas” em algum lugar… e imediatamente você fala “ai!”, ou faz alguma cara do tipo “essa doeu”.

E por que isso acontece?

Porque somos solidários a dor alheia? De certa forma, SIM!

Mas o que acontece no nosso cérebro?

No verão de 1994, na Universidade de Parma na Itália, um macaco aguarda pacientemente no laboratório que os pesquisadores voltem do almoço.
Mas esse não era um macaco qualquer, aliás era, mas tinha alguns “adicionais de fábrica”… ele tinha eletrodos no cérebro, particularmente nas regiões que planejam e executam os movimentos, também chamado de córtex pré-motor.

Esses eletrodos ficavam ligados a um máquina que toda vez que o macaco realizava algum movimento, neurônios dessa região disparavam e essa máquina fazia um som.

Nesse dia, um pós-graduando entrou no laboratório tomando um sorvete. Quando este levou o sorvete até a boca, a máquina soou mesmo sem qualquer movimento do macaco! O macaco apenas observou o movimento!!!

Giacomo Rizzolatti, um neurocientista dessa universidade relatou que outros pesquisadores haviam observado a mesma coisa, só que amendoins. Parafraseando o famoso Chaves: “Eu sabia isso com maçãs!” Mas nesse caso era com amendoins!

Os pesquisadores observavam que os neurônios que disparavam quando o macaco realizava o movimento eram os mesmo que disparavam quando ele apenas observava o movimento!

Esses neurônios são chamados de neurônios-espelho…

Porém, nosso cérebro é um pouco mais complexo. Segundo Rizzolatti: “Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo… e não pensando”

Ou seja, nós sentimos o que o outro sente… quando nós observamos uma ação, nós a executamos também… mas no nosso cérebro!

Por isso, nos vídeos acima se você sentiu alguma aflição ao ver as pessoas caindo ou se machucando, por mais ou menos engraçados que sejam, você também sentiu, por causa dos neurônios-espelho!

E por que nós “realizamos” o movimento no nosso cérebro, mas não o realizamos de verdade?
Porque o nosso córtex pré-frontal, região da frente do cérebro não permite pois seria um movimento inútil pra nós naquele momento.

Isso explica diversas coisas que acontecem no nosso cotidiano, um bom exemplo disso é o bocejo!
Mas quando vemos alguém bocejar, é muito difícil resistir!

E nesse caso… é inevitável!

Por que?
Porque o bocejo é regulado por outras áreas do cérebro também, como o hipotálamo e amígdala. E quando esses falam, o córtex pré-frontal não mete o bedelho!

Pra entender melhor como o bocejo é regulado, assista ao vídeo do quadro do Fantástico “Neurológica”, apresentado pela também fantástica neurocientista Suzana Herculano-Houzel:

Isso que eu chamo de sentir na pele… ou melhor… no cérebro!

Josy Pontes

Um dia triste para a Neurociência…

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , , às Dezembro 10, 2008 por Josy Pontes

“Cada dia é só em si mesmo, não importa que alegria ou tristeza eu tive.” H.M.

H.M.

Morre no 2 dia do mês de dezembro deste ano de insuficiência respiratória o famoso Henry Gustav Molaison mais conhecido como H.M. aos 82 anos. Pra quem não conhece nosso famoso personagem do estudo da memória certamente não leu as notas de rodapé dos livros de Neurologia, Neuroanatomia entre outros…

Aqui vai um resumo da tragicomédia de H.M.:

Depois de um acidente de bicicleta aos 9 anos, H.M. passou a apresentar uma epilepsia intratável. Os focos de origem da epilepsia estavam localizados na região medial do lobo temporal.

Foi aí que começou a importância de H.M. para a Neurociência. Ele foi submetido a uma cirurgia de remoção dos focos epilépticos.
Nessa cirurgia foram removidos o córtex temporal medial de ambos os lobos temporais, amígdalas e os 2/3 anteriores do hipocampo.

The New York Times)

Depois da cirurgia, H.M. perdeu a capacidade de formar novas memórias e esse caso tornou-se um dos mais importantes de estudo na área.

H.M. perdeu grande parte de seu hipocampo (região responsável pela memória), portanto tudo pra ele era novo, cada refeição, cada novo amigo, novo caminho, novo lugar… tudo para ele era como se fosse a primeira vez.

Isso nos faz lembrar daquele filme da Drew Barrymore e Adam Sandler “Como se fosse a primeira vez” (50 First Dates). Pro azar do Adam Sandler, ele a conheceu após a cirurgia.

Porém, H.M. manteve intactas certas habilidades, caso fosse treinado em alguma habilidade motora como tocar piano, datilografar, fazer leituras invertidas (em espelho) ele executava essas habilidades com um ótimo desempenho, mas quando perguntavam a respeito dessas habilidades, ele respondia que não sabia como ele era capaz de fazer aquilo já que nunca havia treinado. E ele tinha treinado sim! Só não lembrava…

Ele também manteve as suas memórias anteriores a cirurgia e muitas vezes ele lembrava de fatos melhor do que uma pessoa comum. Essa memórias, chamadas de memórias de longo prazo, não necessitam do hipocampo… é como se ficassem “gravadas” no córtex frontal.

Suas memórias duravam aproximadamente 20 segundos, mas que isso sem um hipocampo é impossível!

H.M. participou de centenas de estudos, ajudando os cientistas a entender a biologia da aprendizagem, da memória,  de habilidades motoras bem como a natureza frágil da identidade humana, pois ele acabou perdendo parte de sua identidade.

Durante as pesquisas com H.M., ele sempre era informado das suas condições e as recebia com muita surpresa e durante todos esses anos mostrou-se muito gentil com os cientistas.

Os cientistas o conheciam a aproximadamente 50 anos… e para H.M. eram sempre novos amigos!

Por isso, seu falecimento foi recebido com muita tristeza no meio científico.

Tenho certeza que ele sempre estará em nossas memórias, com ou sem hipocampo…

Esse vídeo mostra um caso semelhante ao de H.M.
Peço desculpas pela falta de legenda.

Josy Pontes

Um pouco de estresse é bom… e o cérebro gosta!

Publicado em Drogas de abuso com as tags , , , , , , , , , , , , , , , às Setembro 8, 2008 por Josy Pontes

Dessa vez não vou falar de emoções… mas não tenho como fugir (pelo menos não dessa vez), uma vez que não temos como separar razão de emoção (Descartes que me perdoe!).

Quando falamos de estresse, falamos também de eixo HPA (aquela comunicação entre Hipotálamo-Hipófise (ou Pituitária… por isso o P)-Adrenal.

Relembrando, o hipotálamo é aquela região do cérebro que produz o CRF (fator ou hormônio liberador das corticotrofinas), que estimula a hipófise (ainda no cérebro) a liberar o ACTH (hormônio adrenocorticotrófico… apertando a tecla SAP e traduzindo esse palavrão: hormônio que estimula a córtex da glândula adrenal, perto dos rins). Estimulando a córtex adrenal temos a liberação do cortisol, esse é o famoso hormônio do estresse!

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal

Agora, vamos imaginar a seguinte situação… Estamos numa festa e de repente, aquele grupinho de canto que até agora parecia só observar de longe, resolve sair da festa… dar uma volta ou procurar um canto mais discreto da festa… Pronto, agora chegamos ao assunto, DROGAS!

O grupo procura o melhor lugar, ou seja, aquele longe das pessoas, da polícia e de qualquer outra criatura que possa puni-los ou dar-lhes aquele baita sermão. A situação é estressante? Sim, sem dúvida… mas e o kiko?

A revista Neuron de julho deste ano publicou uma revisão que associa os sistemas de estresse do cérebro ao vício!

Segundo o autor, a ativação do eixo HPA está associada ao uso de drogas e a desregulação desse eixo está relacionada ao vício.

Ou seja, um pouco de estressante é prazeroso pro cérebro, mas em pequenas doses!

Só que, quando o hipotálamo libera o CRF ele não ativa só a hipófise, mas também ativa uma série de outras estruturas fora do hipotálamo e essa ativação extra-hipotalâmica (incluindo áreas ligadas às emoções) tem tudo a ver com a fase de abstinência, todo mundo sabe como fica um usuário na abstinência da droga. Estresse é pouco, então é de se esperar que esse sistema esteja alterado.

Por exemplo, em alcoólatras na abstinência de álcool há um aumento de CRF na amígdala (estrutura do cérebro ligada às emoções) e na estria terminal (outra região do cérebro) e os autores sugerem que é esse aumento de CRF nessas regiões que está por trás do comportamento ansioso e pelas recaídas dos álcool-dependentes.

Figura que mostra a estria terminal e a amigdala cerebral.

Figura que mostra a estria terminal e a amígdala cerebral.

Em ratos álcool-dependentes (sim, ratos “alcoólatras”), se aplicarmos um antagonista de CRF (que não deixa o CRF agir) na amígdala, esse ratos possuem uma diminuição no comportamento ansioso associado à abstinência.

Além de diminuir a ansiedade, também diminui as recaídas durante essa abstinência. Ainda bem que os ratos não costumam frequentar bares, baladas e nem as churrascadas da faculdade!
O que uma birita não faz não é?

E o mesmo resultado foi observado com cocaína, heroína e nicotina.

Mudando de pato pra ganso, ou melhor de CRF pra noradrenalina. A situação é parecida, bloqueando a ação desse neurotransmissor nas mesmas regiões (estria terminal e amígdala), também há uma diminuição da ansiedade e das recaídas na abstinência. Isso vale pra álcool, cocaína, nicotina e opióides como a morfina.

Resumindo, o estresse aumenta o CRF e a noradrenalina que estão ligados ao gostinho de “quero mais” típico das drogas. Sem CRF e noradrenalina na amígdala e na estria terminal, a pessoa em abstinência fica menos ansiosa e menos propensa a recaídas.

No caso das drogas, vimos que o aumento do CRF na abstinência é marcante. Porém, isso torna-se um ciclo: a pessoa tem a droga, usa, acaba, tem a droga, usa, acaba… e assim sucessivamente. Isso é que é brincar com o eixo HPA! Tanto que o eixo HPA cria uma “tolerância”, ele fica cansado e deixa de responder.

Esse comprometimento do eixo HPA está relacionado ao estado emocional negativo da ausência da droga e estado negativo vai embora quando se administra “só mais uma vez”, mas essa uma vez acaba se tornando várias vezes e a quantidade da droga é cada vez maior porque o eixo HPA já não é mais aquele que logo se manifestava.

Seria dessa forma que a ativação do eixo HPA exerceria um papel imporante no mecanismo de recompensa do cérebro quando se começa a usar droga, mostrando que aquilo é gostoso, mas como o tempo a desregulação torna tudo mais dificil e menos prazeroso.

Por esse motivo e por muitos outros (mas os outros motivos são cenas dos próximos capítulos) é necessário aumentar a dose sentir o mesmo prazer do início…

É como dizem por aí… o “barato”sai caro!

Josy Pontes

Não sei se caso… se compro uma bicicleta…

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , , , , às Agosto 24, 2008 por Josy Pontes

Quem nunca se viu numa situação dessas?
Não me refiro a dúvida de casar ou comprar uma bicicleta, mas muitas vezes chegamos na situação do:

E agora? O que eu faço?

Nem sempre tomar decisões é uma tarefa fácil… o cérebro que o diga!

O assunto é tão complexo que a Nature Neuroscience decidiu (e essa decisão deve ter sido fácil) dedicar uma parte da edição de abril desse ano só aos artigos que falam da tomada de decisões! Nada relacionado a casamentos e bicicletas, e sim às vias neuronais e as estruturas cerebrais envolvidas nesse processo.

A habilidade de fazer escolhas certas é crucial para a sobrevivência. Uma boa decisão requer o envolvimento e a integração de várias estruturas cerebrais. A complexidade das decisões varia entre as mais diversas espécies animais sendo mais simples nos animais com o córtex menos desenvolvido e mais complexas nos animais de córtex mais desenvolvido, ou seja, nós!

Uma das estruturas relacionadas com a tomada de decisões é o córtex paracingulado anterior, uma região altamente relacionada com as emoções. A atividade dessa região precede a decisão.
O que torna uma grande mentira a frase: “Deixe a razão decidir”.
A atividade do córtex paracingulado anterior é importante não só na tomada de decisões, mas também ajuda em decisões futuras.

Essa região também está relacionada com o aprendizado baseado na recompensa, ou seja, se alguma vez vivemos fortes emoções numa corrida de mountain bike e aprendemos que isso é prazeroso pro nosso cérebro (recompensa), provavelmente vamos preferir a bicicleta ao casamento, uma vez que você tenha aprendido que nem sempre os casamentos nos trazem tantas recompensas! Por outro lado, se você estiver muito apaixonado, com certeza não há recompensa melhor do que estar ao lado da pessoa amada e nesse caso vocé fará a opção casamento (ou não)! Depende das experiências vividas por cada um!

Outra região envolvida na tomada de decisões é o córtex frontal (mais precisamente no córtex orbitofrontal), aquele do julgamento, do raciocínio, do pensamento… Lembra?
Isso também exclui a frase: Siga (só) o seu “coração”!

Ele também contém informações a respeito do que aquela decisão vai te trazer. É nessa região que você vai perceber que… caso escolha a bicicleta, ela nunca irá brigar com você caso queira chegar mais tarde do trabalho na sexta ou se você saiu em pleno domingo de sol pra jogar bola com os seus amigos!

Um dos núcleos da base, o núcleo caudado, também está relacionado com a tomada de decisões. Ele participa na “previsão” da recompensa. Se eu escolher X eu vou ganhar isso, mas se eu ecolher Y vou ganhar aquilo (o “isso” e o “aquilo” vou deixar a critério de vocês).

Nesse caso, a ínsula está envolvida com os estados emocionais negativos. Se eu escolher X eu vou perder isso, mas se eu ecolher Y vou perder aquilo (”isso” e “aquilo” novamente a critério de vocês).

Quando a decisão envolve dinheiro, sexo, fazer compras, comer chocolate e outras coisas prazerosas… o buraco, quer dizer o núcleo é mais em baixo. A área tegmental ventral que fica no tronco encefálico (mesencéfalo), libera dopamina no núcleo accumbens (núcleo do prazer). Afinal, todos nós sabemos o quanto é prazeroso ganhar dinheiro ou comprar uma roupa nova!

Legenda: CD (núcleo caudado), Ins (Ínsula), OFC (córtex órbitofrontal), APC (córtex paracingulado anterior), NA (núcleo accumbens), VTA (área tegmental ventral).

Josy Pontes

Acreditar ou não em Deus… E o cérebro com isso?

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , , , às Agosto 9, 2008 por Josy Pontes

Desde a minha graduação eu escuto que o fenótipo é o genótipo mais o ambiente! Pura balela? Não, nunca duvidei que isso fosse uma verdade.

Diferente dos meus longos 4 anos de catecismo, praticamente uma faculdade de Teologia.
Sim! Eu bombei no catecismo!
Espantoso?
E se eu disser que bombei duas vezes?
De espantoso passa no mínimo para o quase impossível! Quase… por que isso realmente aconteceu! Talvez se as freiras daquela época soubessem que viraria uma pessoa apaixonada pela neurociência, talvez elas compreenderiam minha rebeldia de criança espertinha em saber que a mulher veio de uma costela, ou que existia uma cobra falante em um jardim.

Mas crenças a parte…  o que o cérebro tem a ver com isso?

Depois do artigo publicado por Han & Northoff nesse mês na Nature Reviews Neuroscience, não há dúvidas que o ambiente e a crença ou não em Deus altere as vias cerebrais, ou seja o cérebro de um ateu e de um crente, isto é, que crê em um Deus independente da religião, às vezes “pegam caminhos neuronais” diferentes para executar uma mesma tarefa.

Foi isso que esses pesquisadores mostraram em seu experimento.

Eles selecionaram ateus e cristãos e fizeram as mesmas perguntas. Essas perguntas consistiam em julgar a si mesmos e pessoas famosas. Eles deveriam classificar as pessoas citadas pelo pesquisador como: corajoso, desleal, infantil e outros adjetivos.

Enquanto respondiam as perguntas essas pessoas eram submetidas a uma Ressonância Magnética Funcional, onde é possível ver que áreas do cérebro estão ativadas.

O córtex frontal é a região do cérebro envolvida no raciocínio, na tomada de decisões, em julgamentos do que é certo e errado, bom e ruim.
A região dorsomedial (que fica na parte de cima, bem no meio do córtex frontal) é associada à “colocar-se no lugar do outro”. Toda vez que nos colocamos no lugar de alguém essa região é ativada.
Já a região ventromedial (que fica na parte debaixo do córtex frontal, bem no meio) é reponsável pelo nossa auto-percepção, como nós nos julgamos. Todos nós sabemos quando estamos felizes, tristes, não é? Pois é, a região ventromedial do córtex frontal faz isso!

Quando pediram para ateus e cristãos julgarem a si mesmos e outras pessoas (pessoas famosas). Eles ativaram áreas diferentes do cérebro.

Os cristãos ativaram a parte dorsomedial do córtex frontal.
Enquanto os ateus ativaram a região ventromedial do córtex frontal.

Ressonância magnética funcional (ateus e cristãos)

Ressonância magnética funcional (cristãos acima e ateus abaixo)

Ou seja, os ateus na hora de julgarem se baseiam na sua própria vida. Como o cristianismo é baseado no julgamento de Deus, isto é, o que Deus acha certo ou errado (pecado) e os cristãos acabam seguindo esse padrão, não é de se espantar que a área ativada fosse a dorsomedial. Portanto, o estudo sugere que os cristãos se colocariam no lugar de Deus na hora de julgar a si mesmos e aos outros. Interessante não?

Quem nunca julgou (baseado ou não nos olhos divinos), que atire a primeira pedra!

Josy Pontes

Centro das Emoções: Cérebro ou Coração? – Parte II

Publicado em Neurociências com as tags , , , , , , , , , , , , às Agosto 1, 2008 por Josy Pontes


Estou há 3 dias pensando em um tema para postar e nada!

Apesar de me sentir vencida pela falta de criatividade, hoje o amigo e comediante Danilo Gentili me deu uma excelente idéia. Ele disse que hoje (31/07) é o Dia Mundial do Orgasmo!

Confesso que nunca tinha ouvido falar desse tal dia e confesso também que o Danilo não é fonte das mais confiáveis…

Não que o orgasmo não seja digno de um dia só para ele e nem seja um assunto interessante, mas resolvi escrever a segunda parte do meu texto “Centro das Emoções: Cérebro ou Coração?”

O prazer, a euforia, a tristeza, o desânimo, a depressão, o medo, a ansiedade, a raiva, a calma, o desânimo, a alegria… são emoções comuns no nosso dia-a-dia e são elas que conduzem e influenciam nossas ações. Não precisamos ser neurocientistas para saber disso.

E por serem tão complexas, já era de se esperar que a fisiologia delas também seja complexa e envolva uma série de estruturas e áreas do cérebro.

CÓRTEX: as emoções são conscientes, todos sabemos quando estamos apaixonados, quando nos recusamos a subir na montanha-russa, quando queremos ficar sozinhos sem falar com ninguém. Logo, o córtex frontal está envolvido nas emoções.

SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO: quem nunca sentiu o coração disparar depois daquele tropeção, ou sentiu a respiração ficar mais rápida ao se aproximar da pessoa amada, ou suou frio diante daquele cachorrinho “bonzinho”. Acho que nem preciso explicar o envolvimento do sistema nervoso autônomo né?

HIPOTÁLAMO: é nele que estão muitos dos circuitos neuronais que regulam a temperatura, a frequência cardíaca, a pressão sangüínea e muitas outras funções. Ele regula tudo isso através do Sistema Nervoso Autônomo citado acima.

Ok… até agora sem grandes novidades!
Mas onde fica a representação cortical das emoções?

1937 -> Um cara chamado Papez propôs que a região do cérebro intimamente ligada com as emoções era o LOBO LÍMBICO que seria um conjunto de estruturas como o giro parahipocampal (que é a continuação do giro cingulado) e o córtex subjacente à formação hipocampal (hipocampo + giro denteado + subículo).

Papez dizia que como o hipotálamo se comunica com áreas corticais superiores (giro cingulado e formação hipocampal), a cognição e a emoção afetam uma a outra. Isso parece óbvio, pois ninguém consegue aprender algo durante um momento de tensão.

1939 -> Klüver e Paul viram que se o lobo temporal for removido bilateralmente em macacos, ou seja, adeus amígdala e formação hipocampal!
Os animais tornaram-se totalmente orais (???), colocando tudo na boca (Ok… sem pensar besteira), inclusive cobras (Tá… tá ficando cada vez mais esquisito)!
Isso mostrou a Klüver e Paul que os animais perdiam completamente o medo!

Outro ponto esquisito e interessante é que os macacos aumentavam (e muito!) o comportamento sexual (Cá entre nós… depois da cobra, já era de se esperar não é mesmo?). Esse estudo um tanto pornográfico foi importante pois revelou uma estrutura que hoje é reconhecida como a porção do sistema límbico mais implicada nas emoções. A amígdala!

AMÍGDALA: Não, não é aquela que dói quando temos amigdalite. Essa amígdala (ou corpo amigdalóide) que vou falar fica no cérebro! Muitos dos efeitos da amígdala sobre os estados emocionais são mediados através do hipotálamo (que se comunica com centros cerebrais superiores) e do sistema nervoso autonômico (que produz os efeitos no organismo: taquicardia, tremores, sudorese).

Experimentos onde a amígdala era lesionada provocavam diversos efeitos (dependendo da região da amígdala que era acometida):

* ausência do medo (tanto do medo inato, quanto do aprendido)
* perda de reações emocionais apetitivas (o animal aprende que toda vez que toca a campainha significa que “tá na hora do rango”, depois da lesão da amígdala ele perde a sensação do “hummm, tocou a campainha vem coisa boa por aí”. Nesse caso o animal só tem a sensação do “Vixi, lá vem aquela comida marrom em flocos de aspecto repugnante”. Ou seja, o animal não associou a campainha ao gosto e sim ao aspecto da comida. Isso é o que eu chamo de deixar de ver o lado bom das coisas!

Por outro lado, a estimulação elétrica da amígdala promove:

* aumento da freqüência cardíaca
* aumento da freqüência respiratória
* aumento da pressão arterial
* sentimentos de medo e apreensão
* (em animais) tendências orais
* (em animais) hipersexualidade
* (em animais) mansidão

Já falei de coração e emoções, espero que o cérebro esteja bem representado também!

Josy Pontes